Quem será o próximo ministro das Finaças?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O spa político


Lembra-se de ler que Portugal não tinha dinheiro para Junho? Era para hoje. Era para pagar 6,7 mil milhões de euros em obrigações a dez anos que vencem hoje. Hoje pagamos o que devemos. Mas não respire de alívio: pagamos uma dívida com outra. É dinheiro da troika. Da UE e do FMI. Que não nos falte. À Grécia já falta.

Sem troika hoje entraríamos em bancarrota. Com troika estamos ainda nas calhas do degredo. Queixamo-nos das taxas de 5,3%? Ontem, nos mercados, as taxas de juro a três anos de Portugal ultrapassaram os 13%. Tre-ze-por-cen-to! O que significa isso? Que os mercados dão como certo o próximo corte do "rating" de Portugal. É esse o passo depois do corte da notação da Grécia esta semana. Mais um golpe e seremos "lixo".

Lixo...

Olhamos com pavor para a Grécia porque receamos que seja uma máquina do tempo para Portugal. Por um lado, serve de cobaia aos experimentalismos fracassados da União Europeia, o que nos beneficia; por outro lado, a reestruturação de lá e as suas consequências pode ser a reestruturação de cá e as mesmas consequências. No limite, a saída do euro.

Podemos queixar-nos das agências de "rating". Serve de pouco mas sabe bem. O que mais revolta nem é a inadidade com que condenam países, é a sua inimputabilidade ante o descalabro do sistema financeiro que elas próprias validaram. Mas experimente ler o relatório de "downgrade" de um país: estão juridicamente blindados para qualquer erro. Têm melhores advogados que analistas de risco. E o CCC com que marcaram esta semana a Grécia são os cês com que ciciam os seus fracassos previamente absolvidos. Pelo seu futuro, a Grécia será CCC. Pelo seu passado, as agências de "rating" são XXX, um impudor "hardcore".

Quando o Parlamento caiu, os "ratings" de Portugal desabaram, ao contrário do que o PSD, entetanto eleito, previa. Essa queda não foi irrelevante. Não é só uma questão de prestígio. Nem de taxa de juro que aumenta. É os bancos deixarem de ter colaterais para as suas dívidas.

É a dívida pública portuguesa deixar de ser elegível para investimentos nos fundos por esse mundo fora. Mesmo em Portugal: o fundo de reserva da Segurança Social, entupido de dívida pública portuguesa, está impedido de investir em dívidas de Estados com "rating" "lixo". O Estado Português vê-se no famoso paradoxo de Groucho Marx: "Não quero pertencer a um clube que aceita pessoas como eu".

Como alguém disse, basta um erro para descer um degrau no "rating" mas é preciso muitos sucessos para voltar a subi-lo. Depois das descidas do Estado vêm os "ratings" das empresas e dos bancos. Isso aumenta os custos dessas empresas. E afasta investidores das Bolsas, o que é o contrário do que precisamos, sobretudo quando nos comprometemos com um programa de privatizações tão alargado quanto inoportuno.

Mesmo que privatizemos tudo o previsto, encaixaremos uns 10 mil milhões de euros. Uma lágrima que pouco apequena a dívida consolidada de quase 160 mil milhões. Vamos conseguir pagá-la? Provavelmente não. Mas temos de fazer tudo por isso. Porque o pior cenário é estarmos no mesmo saco dos pobres dos gregos. Que estão à beira da reestruturação. Sob a ameaça de exclusão do euro. Se isso nos calha, estamos perdidos.

O próximo Governo está prestes a ser anunciado. Óptimo. Tivemos dez dias de spa político, é preciso voltar ao ringue. Sem perder a noção da urgência, da ameaça, dos "ratings". "Hás-de mostrar-me o teu caixote do lixo", costumam brincar os miúdos. Mas é melhor não. Porque um destes dias olhamos e o lixo somos nós.


psg@negocios.pt

3 comentários:

Vasco Cunha disse...

Só uma pergunta:
Onde é que este iluminado quer chegar??

O Sr. Prusidente da Xunta disse...

Que se não despedirmos funcionários públicos, reduzirmos os salários dos restantes funcionários, publicos e privados, e se não aprendermos a viver de acordo com o que temos estamos bem fodidos proximamente...

Vasco Cunha disse...

Não creio que seja necessário despedir funcionários publicos. Acredito mais que será necessário reduzir salários dos gestores publicos e privados e administradores de empresas e recolocar os funcionários publicos considerados excedentes nos seus serviços onde eles realmente fizerem falta. Além disso, deve existir uma grande exigência de rigor por parte do estado aos bancos relativamente à atribuição de créditos às familias. O problema de muitas familias não foi terem ordenados altos mas sim darem-lhes a entender que eles podiam ter uma vida economicamente bastante acima da que realmente podiam.